quarta-feira, 29 de setembro de 2010

lembrete

"Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e a arte de representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida - umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana. Não é o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso"

Fernando Pessoa "Livro do Desassossego"

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

QUASE

"Quase, é uma palavra notável. Todas as pessoas deviam ter por nome próprio quase. Eu sou quase, tu és quase, ele é quase, nós somos quase. Quase qualquer coisa que não chega a ser quase. Uma equação quase perfeita. Um número quase redondo que só existe dentro das nossas cabeças ligadas por fios primorosos. Fios de aço que amarram a loucura e a mantêm obediente. Não pretendas ser mais. As lágrimas que te escorrem pela cara desenham traços de temperatura variável. Continuam a surgir frases por escrever, amores inacabados. O amor é sequioso como uma planta. O melhor é a água. Não há outra maneira. A felicidade é coisa que acontece tarde. Da qual só se tem notícia depois de ter sido. Quando alguém clama: sou feliz, está a preparar-se para a desgraça. Imensas são as coisas que só existem no tempo passado. Não há vagas, quer no inferno, quer no paraíso. Suceder já quer dizer sucedido, porque triunfar é um verbo a morrer. Há em mim qualquer um que tem saudades de si. Saudades imperiosas, bruscas, inevitáveis. Continuo a ignorar para onde foi o que fui, em que casas acordam as pessoas que amei. Dói quase. Assim, sempre assim. Uma espécie de distância que não pode ser percorrida."

Pedro Paixão
http://www.pedropaixao.net/index2.html

sexta-feira, 4 de junho de 2010

E ESTÁ TUDO DITO!

"Como sabeis, a última palavra que Luís de Camões escreveu em "Os Lusíadas" foi 'inveja'. Como também sabeis, e está escrito no livro dos livros, os últimos são os primeiros. Com efeito, está dito que "muitos primeiros serão os derradeiros, e muitos derradeiros serão os primeiros" (Mateus 19.30). Ora esta citação, além de revelar a minha enorme erudição bíblica, significa que Camões, quando escreveu a palavra inveja em último lugar, queria dizer que ela era para nós - 'os lusíadas', os habitantes deste rectângulo - a primeira.Qual é, pois, a nossa primeira qualidade e o nosso primeiro defeito? A inveja!
Assim sendo, o nosso primeiro sentimento com aqueles que triunfam na vida é, desde logo, uma profunda desconfiança, um sólido mal-estar e, por último, uma enorme raiva. (...)" -


Comendador Marques Correia (Única, Expresso)

Desculpe, a senhora tem Photoshop?


"Começo a duvidar de tudo e ultimamente tenho percebido que o Photoshop já não é só uma coisa das fotografias. Há muito que as ultrapassou. A realidade que se nos apresenta também pode ter Photoshop: o emprego é estável, a empresa funciona bem, o patrão parece ser um homem impecável , bom rapaz, uma jóia de moço, e de repente, foge para o Brasil com a secretária e declara falência, deixando sem cerveja e sport tv muitas famílias. As pessoas tal como as capas das revistas deveriam ter um aviso a dizer se estão ou não com Photoshop e ninguém se deveria indignar se alguém lhes perguntasse exactamente isso : Desculpe, a senhora está com Photoshop? Com a sua licença, o distinto escritor não se importa de me dizer se este livro escrito por si, não estará com Photoshop? Não se importa de me esclarecer, se esta alegria que vejo daqui, este sorriso largo, isto porventura não terá aqui Photoshop? Daí que uma fotografia com Photoshop acabe por ser mais sincera e real, do que uma pessoa com a mesma técnica. A fotografia, por mais que tente – e tenta de facto - não consegue disfarçar aquela barriga lisa, aquele rosto perfeito, aquelas pernas imaculadas sem vestígios de idade, sem rugas, sem ponta de envelhecimento. Já uma pessoa ou um grupo delas, dessas que habitam connosco, que vivem, que trabalham, que partilham o mesmo espaço, que são mais do que uma fotografia, que sorriem e falam, que demonstram coisas, que nos parecem tão reais quanto nós mesmos, podem muito bem revelar-se, um imenso Photoshop."
Fernando Alvim in http://esperobemquenao.blogspot.com/

quinta-feira, 6 de maio de 2010

A problemática da escrita

Perdi o hábito de escrever.
Agora que passei alguns minutos a ler os meus blogues percebo que são os "dramas" pesoais e as "crises de crescimento" que me atiram para o teclado. Provavelmente necessito de inspiração de cariz negativo... isso seria aborrecido!

Muito aborrecido mesmo, pois planeio manter-me tranquila e serena (por que razão não o dizer? FELIZ) por muitos e bons anos.

segunda-feira, 29 de março de 2010

GOSTO... :D

"Gosto muito de muito em ti: que não saibas onde se guardam as coisas, que finjas saber a resposta quando te pergunto se o azul se o verde; gosto da abrasão gentil da tua barba e do modo como sorves o cigarro e soltas o fumo de lado, para que não me acerte na cara. De dizer o teu nome em voz alta. Gosto. De quando me telefonas e me cantas um sucesso gasto do cançonetismo pimba, concentrado nas doze cordas, a esfumaçares saudades em espiral pelo canto da boca. Gosto da meiguice desmedida, desse jorro de ternura que não me dá tréguas, e que todos os teus poros façam por me agradar, embora me agrades tanto com tão pouco esforço, naturalmente, assim como se respirasses. Gosto das toalhas molhadas que te esqueces de pôr a secar, do botão do forno que afinal não ligaste, (…). Gosto que não precises de olhar pra trás quando passa uma mulher bonita, que nunca me largues da mão quando andamos na rua e que me agarres e me puxes quando um carro se aproxima da berma. Gosto da coragem com que entraste na minha vida, da inconsciência juvenil com que abriste caminho em mim e do espírito de aventura com que me desbravaste tristeza fora; e gosto dessa insegurança tão masculina de quem que não tem a veleidade sequer de sondar a parafernália esquizóide que são os mistérios femininos. Gosto de te ser muitas coisas: a tua deusa, o teu dormir, a tua dona, o teu pleito; um aviso pela manhã, um rebate de consciência, um aperto no coração, um consolo, um eco, pontas soltas, arritmias, formigueiro. E gosto dessa tesão a desoras, quando me adivinhas de costas no escuro (o meu corpo desprevenido enquanto o resto à solta, em sonhos indecifráveis)."

In http://umamoratrevido.blogspot.com/

sexta-feira, 12 de março de 2010

Certo...

O 5 de Ouros emerge do Tarot para você neste momento como arcano de aconselhamento.

Vamos falar sobre perdas: nem sempre se ganha, às vezes se perde. Nosso ego nem sempre processa bem esta idéia, mas cedo ou tarde precisamos compreender humildemente que não podemos tudo e que mesmo as pessoas mais positivas passam por duros golpes. Você tem duas escolhas: ficar se lamentando pelos cantos ou reagir, compreendendo a perda como um processo necessário de aprendizado. Espera-se sinceramente que você escolha esta segunda opção! Seja lá qual for a situação dura que você poderá passar, saiba se permitir o tempo necessário de lamentação, mas reaja!

Conselho: Aceitação é o primeiro passo para a transformação.

segunda-feira, 8 de março de 2010

BOA PERGUNTA



"(...)o que acontece quando uma relação não reúne à partida condições para resultar, mas acaba por se tornar uma relação saudável, completa, satisfatória e sólida, contra todas as expectativas?(...)


Esta mania que temos de analisar tudo e de pôr em causa o que não segue as regras habituais, acaba por se virar contra nós. Mais vale deixar correr, confiar na vida e gozá-la enquanto cá andamos, não vá dar-se o caso, com tantas chuvadas, de nos cair um piano em cima e, depois, já não haver nada a fazer. Até porque na prática nunca nada é como imaginámos, ou, como disse John Lennon, a vida é o que acontece enquanto estás ocupado a fazer outros planos."


http://sol.sapo.pt/Blogs/margaridarebelopinto/default.aspx




sábado, 27 de fevereiro de 2010

COISAS QUE ME OCORREM...


"(...)para uma relação amorosa resultar é necessária a combinação de três factores, aparentemente óbvios, mas que na prática se tornam difíceis de reunir. O primeiro passa por duas pessoas gostarem uma da outra em todos os sentidos em que o verbo se pode conjugar. Gostar como amar, como desejar, como proteger, como respeitar. Depois, é preciso que se entendam. O entendimento pode ser natural, tácito ou treinado, mas tem de existir. Duas pessoas que até se amam apaixonadamente, se não se entenderem, não chegam a lado nenhum. E por fim, de preferência, que sejam do mesmo género. Que tenham afinidades suficientes para que não precisem de estar sempre em briefing. É quando sentimos que estamos a jogar em casa e tudo se encaixa naturalmente, mesmo na fase embrionária, cristalizada para sempre nos momentos em que entramos em identificação com o outro. Coisas tão triviais como falar a mesma língua, ter lido os mesmos livros, ouvir a mesma música, seguir o mesmo lifestyle, pertencer à mesma teia social, pegar nos talheres da mesma maneira, ter a mesma lista de palavras proibidas.

Ser pena do mesmo pato é algo quase inato, que tem mais a ver com a forma como somos educados do que com o que ainda conseguimos aprender. Faz parte do nosso património social, essa soma complexa e nem sempre perceptível de entender de valores, convenções, referências e hábitos que fizeram de nós a pessoa que somos e não outra. Podemos ser suficientemente fortes para desafiar o destino, mas não é só o destino – ou o que fazemos dele – que nos molda: é tudo o que bebemos e aprendemos em pequenos e que interiorizamos como padrão, como certo ou errado, porque, quer queiramos quer não, isso já é parte integrante de nós. E não é uma questão de snobismo, é uma questão de bom senso. Se eu sei que me incomoda um homem que ponha o cotovelo em cima da mesa quando come e que se descalce durante o jantar, nem sequer ponho a hipótese de me envolver emocionalmente com ele, ainda que seja igual ao George Clooney; é que já sei que não vou aguentar, tão simples quanto isto. Da mesma forma que nunca irei tolerar comportamentos misóginos e práticas promíscuas porque o que bebi em casa sempre foi o respeito pelo casamento e pelo sexo oposto. Ou alguém que viva de expedientes, porque a educação espartana que recebi não me permite considerar para meu par alguém que não valorize o trabalho.

Prefiro um homem que me dê o braço ou a mão, que fale baixo e me ajude a vestir o casaco, que não teça comentários deselegantes sobre outras mulheres, que me chame querida em vez de amor. E que quando vai a casa dos meus pais, se sinta também ele em casa, e não um elefante numa loja de loiças."

http://sol.sapo.pt/Blogs/margaridarebelopinto/default.aspx

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

As "regras" do amor

“A amizade é o amor sem preço nem prazo de validade. Amamos os nossos amigos sem que os seus defeitos nos afectem. Perdoamos fraquezas, ausências e silêncios, relevamos deslizes e esquecimentos, não exigimos deles mais do que o que já sabemos que nos podem dar. A minha melhor amiga quase nunca atende o telefone, sei que é assim, conto com isso quando preciso de falar com ela. Se for mesmo importante, mando-lhe um sms e ela liga-me logo a seguir. Os amigos são isto: deles aceitamos quase tudo, estamos sempre prontos para os ajudar e damos-lhe quase sempre razão. Sabemos ouvi-los, intuímos quando estão mal, gastamos o nosso tempo a encontrar soluções que os ajudem. Os problemas dos nossos amigos ganham por vezes proporções tão grandes para eles como para nós, que não descansamos enquanto eles não ultrapassarem as suas crises.
Se sabemos ser tão bons amigos, porque é que tantas vezes não conseguimos fazer o mesmo com o outro, com a pessoa que vive connosco ou com quem partilhamos a nossa vida? Por que é que o amor é tão mais exigente, tão mais egoísta, tão mais inflexível, tão menos generoso? Por que é que o amor incondicional que acreditamos sentir pelo outro se vai transformando numa soma de compromissos, e do dar tudo por tudo passamos para dar na medida daquilo que recebemos, ou dar para depois cobrar?
Talvez o amor real se resuma a este perpétuo exercício de humildade que é dar e receber, com conta, peso e medida, tentando não cair na tentação de cobrar. Os cobradores de amor são ainda mais sinistros do que os cobradores de impostos. Quem está sempre a cobrar não conhece as regras básicas do jogo amoroso. Mais importante do que falar, é agir. Mais eficaz do que explicar, é dar o exemplo. E mais interessante do que repetir sempre as mesmas queixas, é escrevê-las e pendurá-las na parede. Já dizia a Yourcenar: «A palavra escrita ensinou-me a ouvir a voz humana». As pessoas ouvem as mesmas coisas melhor se forem ditas por outras pessoas ou escritas.
O amor real, o que não alimenta nem a música nem a literatura mas que nos alimenta todos os dias, é um contínuo treino de qualificação. É preciso parar para pensar e pensar antes de agir, de protestar, de cobrar. Sem empatia, é impossível construir o amor. A empatia é a capacidade de perceber o que o outro sente, o que o outro quer, o que o outro precisa, sem impor o que acreditamos ser o melhor para ele. Amar alguém é como dar a mão, mas sem forçar; às vezes é preciso puxar para cima, outras vezes é melhor largar e deixar que o outro siga por onde quer, mesmo sabendo que ele se vai enganar e voltar atrás.
Amar é sempre uma forma de exercer poder, da mesma forma que ser amado é aceitar que o poder do amor que o outro tem por nós paire sobre a nossa cabeça, por vezes sob a forma de um manto protector, outras sob a forma de uma espada, porque quem nos ama é porque já nos projectou no seu espírito, quem nos ama quer sempre que sejamos mais e melhor do que somos, quem nos ama quer sempre moldar-nos ao seu desejo ou à sua imagem e semelhança.
Amar é um jogo de sentidos e de poderes, é preciso ser humilde e generoso para o ganhar, todos os dias um bocadinho, com esforço e entendimento, sem medo de falhar. Se assim for, ninguém perde e ganham os dois."

http://sol.sapo.pt/Blogs/margaridarebelopinto/default.aspx