terça-feira, 31 de maio de 2022

A propósito de tudo e de nada, mas em especial do tempo que passa...

Não sei se estão a ver aqueles dias

Em que não acontece nada sem ser o que aconteceu e o que não aconteceu

E do nada há uma luz que se acende

Não se sabe se vem de fora ou se vem de dentro

Apareceu

 

E dentro da porção da tua vida, é a ti

Que cabe o não trocar nenhum futuro pelo presente

O fazer face a face que se teve até ali

Ausente, presente

 

Vê lá o que fazes, há tanto a fazer

Fazes que fazes ou pões sementes a crescer?

Precisas de água

Terra também

Ventos cruzados e o sol e a chuva que os detém

Vivida a planta

Refeita a casa

É o espaço em branco

Tempo de o escrever e abrir asa

E a linha funda, na palma da mão

Desenha o tempo então

Desenha o tempo então

 

Mas há linhas de água que cruzas sem sequer notares

E oh, estás no deserto

E talvez no oásis, se o olhares

E não há mal, e não há bem

Que não te venha incomodar

Vale esse valor?

É para vender ou comprar?

 

Mas hoje questões éticas?

Agora?

Por favor

Que te iam prescrever

A tal receita para a dor

Vais ter que reciclar

O muito frio e o muito quente

Ausente

Presente

 

Vê lá o que fazes, há tanto a fazer

Fazes que fazes

Ou pões sementes a crescer?

E a linha funda, na palma da mão

Desenha o tempo então

Desenha o tempo então

 

Um curto espaço de tempo

Vais preenchê-lo

Com o frio da morte morrida

Ou o calor da vida vivida?

Não queiras ser nem um exemplo

Nem um mau exemplo

Por si só

Há dias em que é grão da mesma mó

 

E a senha já tirada

Já tardia do doente

Dez lugares atrás

E pouco a pouco à frente

E cada um falar-te das histórias da sua vida

Feliz, dorida

 

Vê lá o que fazes

Há tanto a fazer

Fazes que fazes

Ou pões sementes a crescer?

Precisas de água

Terra também

Ventos cruzados

E o sol e a chuva que os detém

Vivida a planta

Refeita a casa

E espaço em branco

Tempo de o escrever e abrir asa

E a linha funda, na palma da mão

Desenha o tempo então

Desenha o tempo então

 

E explicaram-te em botânica

Uma espécie que não muda a flor do fatalismo

Está feito

E se até dá jeito alterar

Só por hoje o amanhã

Melhor é transfigurar o amanhã com todo o hoje

E as palavras tornam-se esparsas

Assumes

Fazes que disfarças

Escolhes paixões

Ciúmes

Tragédias e farsas

E faças o que faças

Por vales e cumes

Encontras-te a sós, só

Grão a grão

Acompanhado e só

Grão da mesma mó

 

Composição: David Fonseca / Sérgio Godinho

Sem comentários:

Enviar um comentário