domingo, 12 de julho de 2009

O VALOR (ESQUECIDO) DA AMIZADE

"A amizade é o ingrediente mais importante para uma vida feliz, professava Epicuro de Samos, filósofo grego, o mesmo que considerava a prudência mãe de todas as virtudes, ainda mais importante do que a própria filosofia. O homem que classificou os desejos em naturais e frívolos, acreditava que a felicidade era possível e desejável através da tranquilidade do corpo, só alcançável com bom sono e nutrição adequada. Classificando a riqueza e a glória como prazeres artificiais e a imortalidade como um desejo irrealizável e, por isso mesmo, também ele frívolo, Epicuro dizia que não é a morte que é dolorosa, mas a sua antecipação, sendo feliz aquele que alcança a libertação da dor e do medo. Talvez os amigos nem sempre possuam a capacidade de nos libertar de dor, mas certamente têm um papel fundamental no que respeita ao medo, nomeadamente ao medo da solidão. Em caso de separação ou viuvez, é normal que os mais próximos se organizem numa espécie de congregação tácita para marcar presença e fazer companhia a quem precisa. São gestos espontâneos, porém conscientes. Quando um amigo sofre a dor profunda de uma perda irremediável, é preciso accionar os mecanismos necessários para ajudar a atenuar a dor, sob a forma de atenção, carinho e companhia.Ora isto é também uma forma de amor. Amar os nossos amigos é uma prática saudável, prudente e frutífera. A amizade tem encantos imbatíveis. É uma forma sublime de amor, mas sem preço nem prazo de validade. Aceitamos nos nossos amigos idiossincrasias que nunca admitiríamos ao nosso amor e não lhes cobramos falhas e ausências com a mesma ferocidade. Estamos lá, para o que der e vier, aconteça o que acontecer, tal como no amor puro e incondicional. Só que no amor procuramos e reclamamos uma troca justa, ou pelo menos equitativa, enquanto que na amizade, que não sofre da idealização, aceitamos os defeitos sem que isso sirva para o crucificar. Os casais mais felizes que conheço e com relações mais duradouras são, também, grandes amigos. Há em todos uma linha subjacente de entendimento tácito e de tolerância treinada para aceitar os defeitos do outro, ao mesmo tempo que a empatia, enquanto capacidade de entender o que o outro quer e deseja, actua em quase todos os momentos. Essa capacidade de pensar no bem-estar do outro e de conseguir perceber o que o faz feliz ou o que o entristece parece muito mais fácil de alcançar em relação aos amigos do que quando se trata do nosso mais que tudo. Porquê?Porque não paira sobre a amizade aquele véu chamado desejo físico, aquele demónio chamado ciúme, aquela grilheta chamada sentido de posse e aquele fantasma chamado medo. Nunca temos medo de perder os nossos amigos porque sabemos que eles estão lá para sempre e que só a morte os poderá levar. A linha ténue entre o amor e amizade pode ser uma dádiva, se for gerida com prudência, a sábia mãe de todas as virtudes."

http://sol.sapo.pt/blogs/margaridarebelopinto/default.aspx

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